segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Centenário da Imigração Japonesa, Respeito, cultura e democracia

CENTENÁRIO
Respeito, cultura e democracia
por Thiago Higa
Estaremos comemorando, neste ano de 2008, o centenário da imigração japonesa, e desde o início de Janeiro vi muitas propagandas sobre este tema. No entanto, a mídia toda está apenas enfocando projetos com alguns fins específicos (econômicos e marketeiros), sem dar a devida atenção às questões mais relevantes sobre o mesmo tema (questões estas das quais estarei comentando, brevemente, mais adiante).
 
Em um certo canal de televisão, encontramos programas que, semanalmente, estão falando sobre alguns costumes do Japão. Claro que estes programas sempre mostram o que há de mais "exótico" da cultura do outro, sempre com a nítida intenção de estereotipar esta etnia. As matérias exibidas não retratam uma realidade social vivida pela maioria dos cidadãos, se não uma elite voltada para o modismo (no caso do Japão) – aliás, o que é típico das mídias exibirem – ou uma elite voltada às tradições (no caso do Brasil, muitas vezes protagonizadas pelos imigrantes, nisseis e colônias).
 
Há algum tempo atrás, discuti com diversas pessoas as mesmas questões sobre as intenções das mídias audiovisuais. Esta mesma emissora do comentário feito a pouco, que hoje veicula tais programas "pegando carona" na questão do centenário, é a responsável por criar diversos programas – só em novelas, nos últimos 4 anos, tivemos 3 personagens construídos especificamente nos estereótipos do japonês, sem falar nos programas humorísticos – de clara violência étnica, deturpando e fomentando as mais reacionárias interpretações de uma cultura.
Jornais impressos, virtuais e audiovisuais fazem matérias pobres e descartáveis, ora sobre a imigração ora sobre o bairro da Liberdade. Matérias estas que apenas repetem informações que muitas pessoas, interessadas ou não na questão, já estão tão cansadas de ouvir por não haver um estudo mais amplo sobre o assunto (ocorrendo a banalização da cultura e dos processos sociais e políticos de cada momento histórico).
 
O centenário da imigração japonesa é um marco histórico e cultural para este país, sendo sua importância não apenas voltada para celebrações festivas (tão pouco para a auto-promoção de instituições e empresas) – que somente possuem intuito econômico de lucrar ou a busca por (mais) prestígio – mas principalmente para a reflexão da própria sociedade em questões primordiais como: o racismo, explícito e implícito, dentro da sociedade e dos meios de comunicação; o não-reconhecimento do descendente de japonês como brasileiro (quando o mesmo é apenas reconhecido nos jogos olímpicos); a cultura japonesa analisada e apresentada com seriedade – e não de forma estereotipada e carregada de etnocentrismos – nas mídias; os conflitos e dificuldades enfrentadas pelos imigrantes japoneses antes e durante a 2ª Guerra Mundial e os problemas sociais enfrentados por esta nossa geração (nisseis, sanseis e yonseis); em fim a democratização da cultura (que é de direito a todos os cidadãos perante a Constituição e reafirmado pelo projeto de Cidadania Cultural) entre tantos outros pontos.
O enfoque principal das mídias é a afirmação de uma falsa interatividade com a cultura em suas festividades e rituais (tradições japonesas mantidas ainda no Brasil pelos nikkeis), nas peculiaridades culturais da ethos japonesa (o "exótico" sob a visão etnocêntrica), e a aparente visão democrática sob uma falsa integração cultural, geralmente (e principalmente) expressa nas relações econômicas.
 
Escapando da visão burguesa das mídias, nos deparamos com alguns aspectos reacionários, muito parecidos com o fascismo, provenientes de algumas pessoas e instituições que ainda mantém a idéia de reafirmação dos costumes e valores (em sua totalidade) das tradições. Sempre neste culto ao tradicionalismo e ao passado que precedeu a imigração em cada ano, nunca parando para uma reflexão das questões presentes acerca dos nikkeis na realidade histórica brasileira.
 
O centenário não pode ser marcado por apenas estas duas visões que se torna quase que uma hegemonia. Existe a urgência de discutir com mais profundidade o tema e a questão do oriental nipo-brasileiro e de garantirmos os direitos mais básicos dos cidadãos brasileiros sobre a cultura oriental (japonesa e nipo-brasileira) e seu acesso no Brasil.

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