sexta-feira, 27 de junho de 2008

A Economia e a Violência

 Palestra de Guillermo Sullings em Quito-Equador

30/10/2006



Introdução



Quando os Humanistas falamos de violência, o fazemos em um sentido amplo; não nos referimos somente às situações de violência física, mas também falamos da violência psicológica, da violência racial, religiosa, sexual, e também nos referimos à violência econômica.

Está claro que se exerce violência quando se discrimina a outro pela sua raça ou religião, quando se submete a outro, quando se o priva de seus direitos, quando se cometem injustiças. Mas às vezes, as injustiças originadas pela violência econômica, não são tão simples de perceber, porque nem sempre estão claros os limites nem as responsabilidades. 'São as forças do Mercado', costuma dizer-se quando se tenta explicar certos fenômenos através dos quais milhões de pessoas ficam marginadas e excluídas. Quem são as vítimas e que os verdugos?

Analisar os mecanismos mediante os quais se termina exercendo a violência econômica pode resultar sumamente revelador. Mas, analisar, além disso, os mecanismos pelos quais a violência econômica se realimenta com outros tipos de violência poderia nos facilitar a compreensão, pelo menos em parte, da complexa situação atual no mundo.
Sem dúvida que não pretendemos neste breve ensaio, explicar todos os fenômenos sociais desde a economia. Isso seria cair em outra forma de economicismo, e desconhecer absolutamente a verdadeira dimensão do fenômeno humano. Não se trata de causas e efeitos, mas em todo caso de relações de concomitância, onde o fator econômico, e em particular a violência econômica, fazem sua parte dentro de um esquema muito mais complexo.

Não obstante, como a matéria que nos ocupa neste trabalho, é a economia, nos tomaremos a liberdade de olhar desde ali a interação de fenômenos sociais, deixando em claro que é somente um enfoque parcial e que, além disso, longe está de esgotar-se, nestes conceitos muito gerais que desenvolveremos a continuação.


Guillermo Sullings



A violência gerada desde os sistemas econômicos



Como conceito geral podemos dizer que, todo sistema que localize ao fato econômico como centro de gravidade, é por si violento já que por definição desloca os valores humanos para um lugar secundário. Seguramente que na hora de buscar exemplos de violência econômica, os encontraremos em abundância na economia capitalista, e está bem que aprofundemos nela, já que é o sistema imperante na maioria do mundo. Mas isso não pode fazer-nos evitar os atropelos cometidos em outros sistemas econômicos, muitas vezes fundamentados em ideologias que, paradoxalmente, propunham melhorar a situação do ser humano. Se começamos pelo mais grosso, encontraremos em alguns genocídios históricos a busca por impor a sangue e fogo certos esquemas políticos e econômicos. Desde as teorias do "espaço vital" para o desenvolvimento de seus povos, com as quais o fascismo e o nazismo pretenderam justificar seu expansionismo, com a submissão e extermínio das denominadas "raças inferiores". Passando pelos milhões de mortes produzidas na União Soviética durante mais de meio século, para sustentar a "ditadura do proletariado". Lembrando também o massacre de 3 milhões de pessoas no Camboja, sob o regime dos Jémeres Vermelhos liderados por Pol Pot, que entre 1975 e 1979 forçaram o êxodo da cidade ao campo para, entre outras coisas, converter-se no primeiro produtor mundial de arroz.
E ainda sem chegar aos casos extremos de genocídios, em todos os regimes nos quais desde o Estado se tentou impor um sistema político e econômico desenhado por um grupo de iluminados encontraremos todo tipo de violações aos direitos humanos. No entanto, se bem a responsabilidade principal nestes atropelos foi de quem exerceram o poder, também existiu cumplicidade de uma parte dos povos, que permitiram que seus ódios e ressentimentos contra outras raças, etnias, ou classes sociais, fossem exacerbados e utilizados pelos seus líderes, como combustível para o "motor revolucionário".
Mas quando de genocídios trata-se, o capitalismo tem muitos exemplos para dar-nos; desde os atropelos colonizadores na América, a África e Ásia, passando pelas guerras entre potências industriais, seguindo com as políticas repressivas que deixaram centenas de milhares de desaparecidos em toda a América Latina, e continuando hoje com as invasões dos territórios com reservas petrolíferas.

Mas os casos que assinalamos anteriormente, se referem mais bem à violência gerada para impor e sustentar determinados sistemas políticos e econômicos, perseguindo pelo geral o benefício de certos setores, e implantar determinados esquemas ideológicos pela força. Mas também devemos assinalar as situações de violência que geraram tais sistemas econômicos pela sua própria dinâmica.
Nos experimentos socialistas, o planejamento centralizado da economia só pôde levar-se adiante abolindo a liberdade das pessoas e asfixiando a livre iniciativa em uma complexa meada burocrática. Devia-se produzir e consumir o que o Estado dizia, nas quantidades planejadas e com os preços estabelecidos. As pessoas se transformaram em simples engrenagem de uma pesada maquinaria produtiva, cada vez mais ineficiente. A prometida igualdade se traduziu como pobreza igualitária, na qual, alias, havia cúpulas privilegiadas. Uns quantos burocratas se atribuíram o poder de decidir tudo o que devia ocorrer na economia, gerando-se uma corrente de autoritarismo e violência psicológica.


O capitalismo, por outro lado, em nome das liberdades individuais e rendendo culto ao livre mercado, gerou as condições para que a economia se transformasse em uma luta desigual, entre depredadores e vítimas. A tendência à acumulação do poder econômico em poucas mãos rapidamente deixou no esquecimento à prometida sociedade de oportunidades, gerando uma crescente iniqüidade na distribuição da renda. A violência que significou a exploração capitalista sobre os trabalhadores, tanto do ponto de vista da iniqüidade distributiva como do ponto de vista das condições trabalhistas, com o tempo derivaria, além disso, na exclusão de milhões de pessoas que iriam ficando fora do sistema. Quem sofre a violência do sistema capitalista são os excluídos e os marginados; a sofrem os explorados por um salário miserável e também os diversos elos sujeitos à pressão do eficientismo economicista. A sofrem as vítimas da agiotagem, endividados de por vida, e a sofrem também os "homo-consumidores", cuja vontade é manipulada pela propaganda.


Mas a violência gerada desde os sistemas econômicos, não se limita à violência exercida para manter-se pela força, nem às situações de violência próprias das relações econômicas. Também se exerce violência quando a exploração econômica irracional destrói o meio ambiente e os recursos naturais, contaminando e envenenando todo o planeta. Exerce-se violência quando os poderes econômicos se apropriam do poder político, prostituindo as instituições que supostamente tinham sido criadas para garantir os direitos dos cidadãos. Exerce-se violência quando o poder econômico se apodera dos meios de difusão para condicionar desde ai a subjetividade das pessoas.

Mas vamos aprofundar em dois aspectos, nos quais a violência econômica se relaciona intimamente com dois tipos de violência, que estão levando às sociedades a sua destruição. Um aspecto é o das guerras e o armamentismo e o outro é o da violência social.




A economia e o armamentismo



Esta relação entre a economia e o armamentismo, se transformou nos últimos tempos em um círculo vicioso no qual, por uma parte, os poderes econômicos buscam consolidar seus privilégios apoiados no poder militar, enquanto por outra parte a indústria armamentista procura aumentar seus ganhos alimentando conflitos.
Em um excelente trabalho realizado por dois autores humanistas, Oscar Cevey e Javier Zorrilla, encontramos abundante informação sobre a proporção dos recursos que se destinam ao armamentismo. Citaremos alguns dados a modo de exemplo.


"A cada ano se gasta no mundo perto de um trilhão de dólares (um milhão de milhões) em armamentos, tanto convencionais como nucleares. Em termos de gasto improdutivo a drenagem militar é enorme: na atualidade, entre quinze e vinte de cada cem dólares gastos pelos governos centrais são destinados a fins militares. Isto representa o triplo dos orçamentos para ensino e oito vezes os destinados à moradia."

"A China comprou vinte e seis aviões de combate da Rússia, por uma soma de dinheiro que pôde haver servido para abastecer com água potável a cento quarenta milhões de pessoas durante um ano. A Nigéria adquiriu oitenta tanques da Grã-Bretanha, quantidade que pôde haver servido para imunizar com vacinas a dois milhões de crianças. A Índia comprou vinte aviões de combate MiG-29 da Rússia, por um valor que pôde haver servido para fornecer educação básica para quinze milhões de meninas, que não vão à escola nesse lugar"


"Com milhões de dólares, em lugar de adquirir mais um submarino nuclear, poder-se-ia reflorestar a Terra. Com cinco bilhões de dólares, em lugar de fabricar mais bombas nucleares, se poderia fornecer água potável pura a boa parte do mundo. Com dois bilhões de dólares, em lugar de levar adiante uma dúzia de ensaios nucleares, se poderia fazer retroceder significativamente a desertificação. Com cinco bilhões de dólares, em lugar de fabricar outros seis bombardeiros nucleares Stealth, seria possível reduzir a contaminação atmosférica. Com quatorze bilhões de dólares, em lugar de enviar armas a países de Oriente Médio, seria viável conservar o patrimônio da natureza e eliminar resíduos perigosos."
Os anteriores são alguns dos exemplos de como se poderiam resolver muitos dos problemas que a pobreza gera, destinando neles os recursos que hoje se destinam para a destruição da vida. Claro que semelhante mudança no destino dos recursos, não será possível enquanto o poder econômico seja dono do poder político, já que a violência da guerra é a que o ajuda a manter seu poder.

E ao respeito, continuamos citando alguns parágrafos do trabalho de Cevey e Zorrilla:


"Guerra e pobreza, são elementos inseparáveis que atravessam cada um dos países nos quais se desenvolvem os conflitos bélicos. Não é casual que os diferentes lugares onde se assentam as guerras sejam os que apresentam as maiores misérias. Os interesses por dominar os recursos naturais e energéticos são o verdadeiro motor das confrontações. A abundância de recursos naturais que existe em certos territórios, longe de ser explorada em benefício da população, motiva e financia a maioria dos conflitos."


"Na atualidade existem mais de setenta guerras no mundo. Um terço da atividade econômica mundial depende do complexo militar-industrial. Atualmente o total de países destina mais de um trilhão de dólares à despesa militar, o que representa aproximados 3% do PIB global, um por cento a mais que no ano 2000."

" EUA é a superpotência militar sem rivais. Gastará dois trilhões de dólares nos próximos cinco anos, um orçamento maior que o dos quatorze países seguintes. Depois dos atentados de 11 de setembro EUA se transformou em uma máquina de guerra: sua despesa aumentou onze por cento."


"Os países do G-8 são responsáveis por mais de oitenta por cento de todas as novas armas vendidas aos países pobres. Estes foram o principal mercado da venda de armas. Durante o período de 1997-2001, o maior vendedor de armas do mundo foi EUA com quase quarenta e cinco por cento do total exportado."

"Há detectadas pelo menos noventa empresas de exércitos de mercenários com sedes em quinze países e operações em cento e dez nações ao redor do mundo. Desde 1994 o Departamento de Defesa dos EUA assinou mais de três mil contratos com doze das empresas militares privadas que têm sede nos EUA. O valor total de ditos contratos, incluídas as organizações mercenárias, superou os trezentos bilhões de dólares."


Toda a informação que acabamos de mencionar, é só a modo de exemplo para ilustrar sobre a magnitude de um problema de muito complexa resolução, na medida em que os povos não tomem consciência do rumo das coisas e da sua parcela de responsabilidade. Hoje existe um imenso arsenal atômico de mais de 30.000 artefatos nucleares capazes de destruir várias vezes o planeta, e hoje é possível transportar em uma valise uma bomba 10 vezes mais poderosa que as que destruíram Hiroxima e Nagasaki. Hoje é mais urgente que nunca que o clamor das povoações exija um imediato desarmamento nuclear, que obviamente não passa somente por frear o ingresso de novos membros ao seleto clube atômico, mas passa fundamentalmente pelo total desarmamento dos velhos sócios: as grandes potências. O problema radica em que, precisamente, muitos interesses econômicos ligados às grandes potências se respaldam com o poderio militar. Está claro que não podemos esperar que esta iniciativa do desarmamento seja tomada por quem trafica e comercia com a morte, nem por aqueles que são capazes de bombardear povos inteiros para ficar com um poço de petróleo. São os povos os que têm que refletir sobre o tipo de governantes que estão apoiando. Mas este tema o analisaremos mais adiante.


A economia e a violência social



Em uma passagem deste trabalho, mencionávamos que alguns líderes violentos, tinham fomentado o ódio e o ressentimento em certos setores da população, exacerbando a discriminação entre etnias ou classes sociais, para lançar-se na corrida pelo poder. Essa combinação letal entre líderes autoritários e setores sociais enfrentados levou a muitos excessos e em alguns casos a genocídios. Mas, mesmo que não se chegue nesse tipo de confronto organizado, em muitas das chamadas democracias atuais, a desestruturação social é um caldo de cultivo para todo tipo de violência e está claro que a violência econômica tem um papel muito importante para potenciar esta situação.
Quando analisamos os fatores de discriminação entre as etnias que convivem em um país, vemos que as diferenças na cor da pele, a religião e os costumes, se potencializam quando coincidem com as fragmentações dadas pela situação econômica. Muitos dos aspectos do estilo de vida de alguns imigrantes guardam relação com sua precária situação econômica e com o tipo de trabalhos que têm que realizar para sobreviver. Isto os localiza em uma situação de diferenciação com outros setores da população, e tal diferenciação costuma alimentar a discriminação recíproca. Inversamente, também ocorre que quando determinados setores de imigrantes alcançam uma melhor situação econômica que outros, a discriminação e o ressentimento por parte dos menos favorecidos aumentam.
A discriminação (para cima ou para baixo), gerada pela desigualdade econômica, além de que as camadas sociais coincidam ou não com determinadas diferenças étnicas, não é um fenômeno novo no sistema capitalista. Como citamos no livro de Economia Mista, já os "fouding fathers" de USA fundamentavam o capitalismo com uma suposta "natureza humana", na qual existiam desigualdades inatas, e na que a auto seleção dos melhores devia colocar a estes no poder. Madison sustentava que "... o poder repousará sobre o direito de propriedade que se acha legitimado pela diversidade de faculdades individuais.... o governo terá como finalidade proteger esta distribuição desigual da propriedade que se encontra, por conseguinte, justificada pela mesma natureza humana...". Já naqueles tempos se estava justificando ideologicamente uma sociedade individualista na qual só haveria ganhadores e perdedores, fracassados e triunfadores.
Tudo começou a medir-se com a vara do sucesso econômico. Para um empregado, o desocupado é um folgazão. Para um diretivo, o empregado é um perdedor incapaz de ascender. Para um empresário, os gerentes são cachorros fiéis, incapazes de abrir caminho por si mesmos. Um sistema econômico apoiado nessas valorações só pode gerar violência social. Se essa violência não se canaliza trás a "nova ordem" de líderes violentos, canalizar-se-á desordenadamente através da delinqüência, a droga, o suicídio e o confronto social.

Enquanto isso, os meios de difusão se ocupam de mostrar para a população quais são os modelos de vida a seguir e, sobretudo, que tipo de produtos devem consumir. O resultado conseguido na vida real: um punhado de imbecis que se acham triunfadores porque conseguiram parecer-se com esses modelos impostos, e milhões de frustrados que sentem que ficaram fora da corrida.
Seguramente alguns acharão que um bom motor para o progresso social é a expectativa de cada um por estar no degrau seguinte; o desocupado tentará ser como o empregado, o empregado como o gerente e o gerente como o empresário. E possivelmente, em alguns casos tenha funcionado assim. Mas esqueceram de pelo menos dois fatores. O principal, que o ser humano é algo muito mais profundo e complexo, que um simples "ator econômico". O outro fator é que, além disso, a própria tendência do capitalismo para a concentração, o transforma em uma corrida desenfreada na qual uns poucos ganham e a maioria perde. E se o motor do sistema era a promessa de um futuro de sucesso econômico, esse futuro se foi fechando cada vez mais.
Conseguiram convencer às pessoas de que o sentido da vida era o sucesso econômico e certo estilo de vida; mas como isso é para uns poucos escolhidos, a vida perde sentido para a maioria. Isto é, o sistema capitalista vazia às pessoas por fora e também interiormente!. E sem dúvida que os bem-sucedidos também ficam vazios interiormente. E sem dúvida que fracassar na corrida da estupidez, devesse finalmente ser reconfortante, e abrir-nos passo ao verdadeiro sentido da vida. Mas, enquanto dure a hipnose, os fracassos não aceitos se transformam em depressão, ressentimento, inveja e busca de revanche a qualquer custo e isso se traduz em violência de todo tipo.

É como se houvesse uma guerra civil não declarada. E nas guerras se transtornam os valores: não há amor, não há compaixão, não há respeito, não há códigos de convivência, e tudo se justifica na luta contra o inimigo. Inimigo é quem tem mais que eu, porque o culpo pelo que não tenho. Inimigo é quem tem menos que eu, porque sinto que me espreita. Inimigo é quem tem igual a mim, porque estamos competindo e não permitirei que tire vantagem. E com o inimigo vale tudo, vale a traição, valem o despojo, o roubo, o crime, a exploração e a indiferença ante seu sofrimento.

Assim as coisas, o delinqüente não se sente delinqüente, considera-se um justiceiro que toma o que a sociedade lhe nega. Quem odeia aos que têm mais, não se reconhece como um ressentido, ele sente que com seu ódio faz justiça. O que despreza aos perdedores está convencido que eles são inferiores e têm o que merecem. Cada qual conforma sua escala de valores de acordo com sua própria violência interna e em função dela projeta sua violência fora. Esta violência, na medida em que as pessoas conseguem manter-se dentro do sistema, costuma canalizar-se dentro dos "trilhos legais", e se exerce a violência sob o amparo da lei. Mas na medida em que mais gente vai sendo marginada do sistema, aumenta a violência considerada ilegal, crescendo os transbordamentos e a conseqüente repressão, que realimenta o círculo vicioso da violência.
A pergunta então é: como se rompe este círculo vicioso da violência?. Sem dúvida que não será mudando um aspecto parcial da sociedade, como é o econômico, que se solucionará o problema da violência. É necessária uma transformação integral do ser humano, uma mudança de sensibilidade e de valores que gere como conseqüência outro tipo de sociedade, e nesse outro tipo de sociedade será possível outro tipo de economia. Mas seguramente que avançando na compreensão de nossa própria violência é como poderemos avançar para uma sociedade não-violenta. E neste trabalho estamos tentando avançar na compreensão da violência econômica, e desde esse enfoque cabe a pergunta:
Nossa organização social tem violência econômica porque o sistema econômico é violento, ou este sistema é violento porque assim é a natureza humana?




A mudança social e a mudança individual



Sem dúvida, o humanista não acredita em uma natureza humana imutável, mas, afirmamos que é a intencionalidade humana a que faz evoluir às sociedades e a que fará com que finalmente o mundo saia desta armadilha da violência. Não é possível que a sociedade mude se não vão mudando simultaneamente as pessoas, e ao mesmo tempo, não haveria uma mudança verdadeira nas pessoas se elas não se ocupam de mudar à sociedade.
Há quem sustentam que o capitalismo, mesmo com suas injustiças, é o único sistema que funciona, porque o individualismo e a ambição que motorizam o desenvolvimento neste sistema são parte da natureza humana que não pode mudar. Afirmam que a solidariedade pode ser muito interessante na teoria, mas na prática não mobiliza a maioria das pessoas, portanto, nenhum sistema econômico baseado nela terá futuro.
Alguns afirmamos que uma mudança de sensibilidade já se está dando, e a busca de novos valores fará com que a intencionalidade humana termine por transformar este sistema violento e inumano, por própria necessidade.

Na interessante obra publicada faz pouco tempo por Rafael de la Rubia, "Para um Novo Humanismo", há uma modesta contribuição de quem escreve estas linhas, sobre a nova sensibilidade e os novos paradigmas na economia. Ali se citam palavras ditas por Silo em maio de 2004 em Punta de Vacas "... os povos experimentarão uma ânsia crescente de progresso para todos, entendendo que o progresso de uns poucos termina no progresso de ninguém..."
E dizíamos neste trabalho que, "apesar de que alguns poucos (mesmo que poderosos) seguem acreditando no paradigma da lei do mais forte e da auto-seleção dos mais aptos, as grandes maiorias vão compreendendo a necessidade de um progresso com eqüidade social. No entanto, o velho sistema capitalista não pode dar resposta a essa necessidade porque está montado sobre paradigmas de um mundo que vai morrendo: o mundo do individualismo, o egoísmo, a exploração e a indiferença. Enquanto isso, a organização social está assentada sobre instituições e legislações que, enquanto cobrem a aparência formal da igualdade de todos perante a lei, na prática se alinham cada vez mais com os ditados do capital internacional que se alimenta das desigualdades e a marginação.
É cada vez mais evidente que esta nova sensibilidade que vai nascendo nas pessoas, e que no âmbito da economia se manifesta nessa necessidade de progresso para todos, só poderá canalizar-se em uma profunda transformação social, na medida em que a organização do estado e a economia se montem sobre novos paradigmas, de acordo com essa nova sensibilidade."

"O ser humano está crescendo e a roupa do sistema capitalista está ficando pequena. Fazem falta novos paradigmas para a organização econômica. Todos os procedimentos de um novo sistema econômico, devessem passar o exame de respeitar um paradigma fundamental: Iguais oportunidades para todos."


Finalmente, no trabalho mencionado, comentávamos os pontos principais do Sistema de Economia Mista, como o que poderia ser a forma de organização econômica adequada para a nova sensibilidade que vai nascendo, superando a violência que o capitalismo gera. Sem dúvida não é a idéia estender-nos aqui nos detalhes da Economia Mista, mas podemos lembrar as propostas mais relevantes.
A participação dos trabalhadores nos ganhos, as decisões e a propriedade das empresas, como um modo de melhorar a distribuição da riqueza e assegurar o reinvestimento produtivo. Os Bancos estatais sem interesses, para terminar com o monopólio financeiro da agiotagem privada. O papel de coordenador da economia, por parte do Estado para evitar a anarquia dos mercados, sem que por isso se ponha freio à iniciativa privada. Um regime político de democracia direta, para resolver positivamente a contradição atual entre o público e o privado.

O que queremos dizer é que por uma parte não é possível esperar que um novo sistema econômico ganhe força, enquanto não mude a escala de valores, em absoluto se pode tratar de impor um novo sistema que não coincida com a sensibilidade social. Mas também dizemos que, na medida em que esta vai mudando se faz necessário transformar o velho sistema, porque ele responde a uma velha sensibilidade que vai morrendo.
E sem dúvida que para mudar um sistema político e econômico, de acordo com uma nova sensibilidade que vai nascendo, não será necessário esperar até que o último dos seres humanos sintonize com ela. Sem dúvida que um sistema econômico que se apóie no motor da solidariedade, em lugar do egoísmo, não pode depender de que não fique um só egoísta sobre a faz da terra. Tampouco o capitalismo necessitou que todos fossem empresários para colocar-se em marcha. Será suficiente a iniciativa de uns quantos para dar o impulso inicial e manter em marcha um novo sistema político e econômico. Mas essa iniciativa deve ter o caminho expedito mediante a mudança da legislação, e para isso sim é necessário o apoio das maiorias.
No entanto, parece ser que para que isto se produza será necessário superar algumas contradições nas quais os povos costumam cair, povos que às vezes dão amostras de avançar para uma nova sensibilidade mais solidária e não-violenta, mas outras vezes parecem retroceder e aferrar-se a velhos valores, ou pelo menos a velhas respostas.



As sociedades devem fazer-se cargo de sua parte



Se fizéssemos uma pesquisa, e perguntássemos às pessoas se desejam a guerra, possivelmente a maioria nos diria que não. Se perguntássemos se desejam a violência social, ou a injustiça econômica e a marginação de bilhões de seres humanos, possivelmente a resposta da maioria seria negativa.



Pois então, de quem é a culpa que estejamos assim?



Dos governantes dirão alguns. Das multinacionais, dirão outros. Dos meios de comunicação, arriscará alguém. Ou do poder econômico, que definitivamente maneja aos governantes e aos meios de difusão, poderíamos dizer também para simplificar as coisas.
No entanto, Quem escolhe aos governantes? Quem sustenta o sistema econômico com a ambição e o consumismo?, Quem acredita cegamente nos meios de difusão?
Que é o que gera esta contradição entre o que se diz e o que se faz: a hipocrisia ou a impotência?. Seguramente que há muitos hipócritas, que somente são fiéis a seus mesquinhos interesses, mesmo que humanizem seus discursos para disfarçar suas motivações. Mas há muita gente que genuinamente sente a necessidade de uma mudança, embora não encontre um caminho claro para essas transformações, e muito menos veja com claridade uma relação direta entre suas ações cotidianas e a violência no mundo. E então a impotência se transforma em resignação, indiferença e hipocrisia.
Claro que não é fácil de visualizar até que ponto o consumismo de uma pessoa tem a ver com a desnutrição de outras.

Não é simples compreender como os esforços competitivos de uma pessoa para conseguir uma vaga de trabalho se correspondem com a impotência de quem fica desocupado.
Não se vê com claridade como a ostentação de alguns gera a inveja e o ressentimento de outros. Não se entende que às vezes, o afã de cada qual por ocupar-se exclusivamente de sua própria vida, torna-se indiferença para outros; e muito menos se entende que essa indiferença, também é violência.

É por tudo isso que também não se entende a violência irracional, exercida por aqueles que já não têm nada que perder, contra uma sociedade à qual intuem colaboracionista com o sistema que os margina. E talvez desde essa falta de entendimento, é que às vezes se asseguram as políticas repressivas e agressivas do sistema como solução para a violência, fronteiras dentro e fronteiras fora, com o pretexto de combater aos violentos.
Mas, alguns se perguntarão, E se conseguissem entender esta mecânica,...então que? Talvez deixasse de girar a roda?. A lógica indica que nada pode se fazer desde uma ação individual para mudar um sistema.

No entanto, não devesse haver algo mais ilógico que a lógica da violência, porque nos está levando à destruição. Talvez algum dia, tanta violência nos sature, até nos fartarmos de nossas próprias debilidades e então tenhamos um espaço para a compreensão, acima da negação suicida ou do insuficiente e inócuo entendimento intelectual. Talvez compreendamos que a corrida pelo sucesso individual, coletivamente se transforma em uma avalanche humana, na qual milhões morrem pisoteados; e mesmo que pessoalmente achemos que não pisamos ninguém, empurramos os outros para que o façam.

Talvez por necessidade, algum dia nos cansemos de correr atrás do sucesso e o dinheiro, abandonemos a corrida e assumamos o fracasso, sem esperar com isso mudar o mundo. E talvez, quando deixemos de correr, quem vai à frente já não se senta perseguido e comece a refrear-se; talvez quem venha atrás não tenha já a quem perseguir, e comece a se deter. Talvez os que correm à par nossa, não tenham já com quem competir, e sintam a inutilidade de sua cega corrida. E talvez então o mundo comece a mudar. Não por imposição de um grupo de iluminados, mas simplesmente por necessidade coletiva.
Claro que isto não é tão simples, pelo menos que se produza coletivamente. Não é possível complotar entre bilhões de seres humanos, para nos pormos de acordo da noite para o dia e dizer: "¡Todos de uma vez, abandonemos esta louca corrida e este sistema violento cairá!". Sem dúvida cada vez há mais gente que vai caindo em conta da direção destrutiva que levam as coisas, e começa a mudar sua conduta, e em alguns casos se organiza para tentar mudar o mundo. Mas isso não será suficiente até que os povos não percebam maciçamente esta direção destrutiva.

Indefectivelmente, em algum momento cairão em conta, e o mundo começará a mudar. A pergunta é quanto tempo levará e quantas vidas custará?. Tomara que se acelere a compreensão agora, caso contrário a crueza dos eventos será a que se ocupe de acelerar tal compreensão.




Para onde vai o mundo



Se dermos um rápido olhar na direção que as forças da Economia e a Violência levam, veremos no seu horizonte sofrimento e destruição.
O consumismo irracional desenfreado, em lugar do desenvolvimento racional, leva ao mundo para o desastre ecológico, para a destruição do meio ambiente, para o envenenamento do ar e da água, e para o esgotamento dos recursos naturais.
A feroz concorrência globalizada, por fornecer mão de obra barata às multinacionais, seguirá fazendo descer o valor dos salários e fazendo crescer a desocupação e a marginação. E não faltará quem culpe por isso à China e a Índia, por quererem se industrializar, ou aos imigrantes por nos tirarem o trabalho, aumentando com isso a violência discriminatória.

A luta pelos recursos energéticos não renováveis, fará com que se sigam invadindo países e pressionando governos com qualquer pretexto. As conseqüências destrutivas de tal comportamento já estão à vista, mas ainda não vimos o pior, e o risco da utilização de armas atômicas é maior ainda que durante a guerra fria.
A grosseira desqualificação que se faz de algumas culturas e religiões, com o fim de degradar à vítima, para assim justificar o algoz, com o fim de controlar os recursos estratégicos potencializará os conflitos pelo choque entre culturas.
O terrorismo em todas suas formas aumentará progressivamente, e na medida que se siga alimentando o ressentimento, ele será cada vez mais indiscriminado e portanto nada nem ninguém estará a resguardo do mesmo.

Na medida que a desocupação e a marginação avancem, e esta é a direção que leva o processo, a violência dentro das sociedades irá crescendo, transbordando qualquer tentativa de brindar segurança.

Estes são só alguns dos indicadores de que vamos para o desastre. Serão inevitáveis estes desastres anunciados?. Há um tempo, na Argentina, tivemos uma pequeníssima amostra. Os humanistas anunciamos em 1998 que se não se saía do modelo econômico da convertibilidade, ia-se para o desastre, e efetivamente, ninguém nos ouviu e em finais do ano 2001 ocorreu o maior desastre econômico da história da Argentina. E agora todos dizem: Que bom que caiu esse modelo econômico, não podíamos seguir assim.
Será que daqui algum tempo os povos se olharão retrospectivamente, estranhados de terem vivido e alimentado este sistema deshumanizante? . E que magnitude deverá ter o desastre para que as coisas mudem?. E mudarão para melhor ou para pior?.
Seguramente que em alguns círculos de poder, devem sonhar com que a direção que levam as coisas, conduza para um "equilíbrio natural", de acordo com as teorias de Malthus. Seguramente pensarão que, depois de uma "crise necessária", graças às guerras e as fomes, a população diminuirá, e os sobreviventes alcançarão um equilíbrio social, próprio da literatura owerlliana. Os sobreviventes pobres contidos em um novo apartheid global e os sobreviventes poderosos controlando tudo desde seu luxuoso bunker.

Outros preferirão pensar em um final cinematográfico, no qual uma revolução com bandeiras ao vento termine com o reinado dos maus. E muitos simplesmente não quererão pensar no tema, supondo que as coisas se regularão sozinhas, ou que eles nunca serão alcançados pelo caos.

Alguns achamos que para reverter esta direção destrutiva, é preciso fazer o possível para acelerar a compreensão coletiva do fenômeno. Deve-se ir conseguindo que cada vez mais gente deixe de alimentar o círculo vicioso da violência, e pressione os governos para que mudem suas políticas. Pressionar para o desarmamento, pressionar para a Não-violência, pressionar para a democracia direta, pressionar para a mudança do sistema econômico.
Alguém poderá pensar que o ser humano está muito longe ainda de alcançar o nível de compreensão necessário como para poder corrigir o rumo que levam as coisas E efetivamente, além do acordo intelectual de muitos com estes temas, a armadilha do individualismo nos leva à impotência, e esta à desilusão.
Mas se nosso olhar não fora tão superficial, e se internalizara no mais profundo do ser humano, poderia ver que acima dos processos sociais e as volúveis econômicas, há um milenar processo interno em cada ser humano e em toda a espécie. Esse processo leva uma direção evolutiva que não poderá ser detida por quatro prepotentes vestidos de Rambo, nem por quatro aves de rapina especulando na banca, nem por quatro obsequentes formadores de opinião, e nem ainda por milhões de indiferentes entretidos na sua insignificante vidinha individual.

Porque a indiferença começará a doer, como doem as correntes ao que faz força para libertar-se, como apertam os sapatos ao menino que está crescendo. E a esse novo ser que está nascendo, começarão a ficar pequenas as roupagens deste sistema inumano, e já não o motivarão os velhos e grosseiros desejos.

Alguém disse uma vez, no meio da montanha: "...Há desejos mais grosseiros e desejos mais elevados. Eleva o desejo, supera o desejo!, que você haverá seguramente de sacrificar com isso a roda do prazer mas também a roda do sofrimento." Essas palavras, ditas por Silo há 37 anos em Punta de Vacas, hoje têm mais vigência que nunca.


Em algum momento, a cada vez mais pessoas repugnará sua própria obsecuencia, sua submissão, sua ambição e sua violência. Os desejos grosseiros perderão seu encantamento, porque e o sofrimento que lhes corresponde tornar-se-á insuportável. E só se encontrará um remanso no reencontro do ser humano com suas verdadeiras necessidades, e com o vôo de seu reconfortado espírito. Será mais prazerosa a solidariedade que o egoísmo, a comunicação que a concorrência, a satisfação da necessidade que o consumismo, a amizade que a violência.

Então, os vendedores de lixo já não terão compradores. Os chantagistas já não terão débeis a quem chantagear. Os violentos não terão quem os siga nem quem lhes tema. Os mentirosos não terão quem acredite neles.

Nada deste sistema ficará em pé quando se elevar o desejo. E isso ocorrerá indefectivelmente, porque "não somos um bólido que cai, mas uma brilhante seta que voa para os céus" (citando novamente a Silo).

Esperemos que não sejam necessários grandes desastres, para que se acelere a rejeição ao sistema atual. Esperemos que o crescimento interno do ser humano debilite o mais rápido possível os alicerces desta armadilha mortal. Mas além de esperar, trabalhemos para que isso ocorra.

Claro que tudo isto é muito difícil de explicar desde as teorias economicistas, para as que seguramente resultará "pouco sério", misturar a "objetividade dos temas da economia", com a subjetividade dos temas do espírito.

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