domingo, 22 de novembro de 2009

O significado da Paz e da Não-violência no momento atual. A Marcha Mundial.

Silo - Berlim, 11/11/2009.

Uma marcha percorre o mundo. É a Marcha pela Paz e Não-violência.

Sobre isso falarei brevemente diante deste fórum, em caráter de fundador do Humanismo Universalista e inspirador da mencionada Marcha. Esta, por sua vez, vai dinamizando diversas iniciativas e atividades, como o percurso simbólico de uma equipe de entusiastas que se deslocará durante três meses, através de vários países, tendo começado neste último 2 de outubro, em Wellington, Nova Zelândia, para terminar em 2 de janeiro de 2010, aos pés do monte Aconcágua, em Punta de Vacas, entre a Argentina e o Chile.

A Marcha foi lançada durante o Simpósio do Centro Mundial de Estudos Humanistas, no Parque de Estudo e Reflexão de Punta de Vacas, em 15 de novembro de 2008, ou seja, há um ano, com a clara intenção de criar consciência diante da perigosa situação mundial que atravessamos, marcada pela elevada probabilidade de conflito nuclear, pelo armamentismo e pela violenta ocupação militar de territórios.

Essa proposta de mobilização social é impulsionada pelo Movimento Humanista e seus organismos. Em poucos meses, a Marcha Mundial suscitou a adesão de milhares de pessoas, de grupos pacifistas e não-violentos, de diversas instituições que trabalham a favor dos Direitos Humanos, de personalidades do mundo da ciência, da cultura e da política, sensíveis à urgência do momento. Também inspirou grande quantidade de iniciativas em mais de cem países, configurando um fenômeno de diversidade cultural em veloz crescimento. Nessa ordem de idéias, devo comunicar que à equipe base inicial somou-se outra que está percorrendo vários países do Oriente Médio e uma terceira equipe que está percorrendo a América Central...

Bem sabemos que a situação atual é crítica em todas as latitudes e está caracterizada pela pobreza de vastas regiões, pelo enfrentamento entre culturas e pela violência e discriminação que poluem a vida cotidiana de amplos setores da população. Atualmente, existem conflitos armados em numerosos pontos e, simultaneamente, uma profunda crise do sistema financeiro internacional. A tudo isso soma-se a crescente ameaça nuclear que é, em suma, a máxima urgência do momento atual. Essa é uma situação de grande complexidade. Aos interesses irresponsáveis das potências nucleares e à loucura de grupos violentos com possível acesso a material nuclear de reduzidas dimensões devemos adicionar o risco de acidente, que poderia detonar um conflito devastador.

Todo o anterior não é uma soma de crises particulares, e sim o quadro que evidencia o fracasso global de um sistema cuja metodologia de ação é a violência e cujo valor central é o dinheiro.

Para evitar a catástrofe atômica que parece ameaçar o mundo em um futuro mais ou menos imediato, devemos trabalhar hoje mesmo, superando a violência social e pessoal, ao mesmo tempo em que exigimos:

1. o desarmamento nuclear mundial;

2. a retirada imediata das tropas invasoras dos territórios ocupados;

3. a redução progressiva e proporcional dos armamentos de destruição massiva;

4. a assinatura de tratados de não-agressão entre países; e

5. a renúncia dos governos a utilizar as guerras como meio para resolver conflitos.

O urgente é criar consciência sobre a paz e o desarmamento. Mas também é necessário despertar a consciência da Não-violência Ativa que nos permita rechaçar não só a violência física, mas também toda forma de violência econômica, racial, psicológica, religiosa e de gênero. Certamente, aspiramos a que essa nova sensibilidade possa se instalar e comover as estruturas sociais, abrindo caminho para a futura Nação Humana Universal.

A Marcha Mundial faz uma chamada a todas as pessoas para que somem esforços e tomem em suas mãos a responsabilidade de mudar nosso mundo, superando a violência pessoal e apoiando em seu âmbito mais próximo o crescimento dessa influência positiva.

Em todo esse tempo, em muitas cidades e povoados, estão sendo realizadas marchas, festivais, fóruns, conferências e outros eventos para criar consciência sobre a urgência da paz e da Não-violência. E, em todo mundo, as campanhas de adesão à Marcha multiplicam esse sinal além do até agora imaginado.

Pela primeira vez na história, um evento dessa magnitude é colocado em marcha por iniciativa de seus próprios participantes. A verdadeira força desse impulso nasce do ato singelo de quem, por uma questão de consciência, adere a uma causa digna e a compartilha com outros.

Foi designado para esse período da Marcha, até janeiro de 2010 – data em que ocorrerá a reestruturação do Movimento Humanista – Rafael de La Rubia como representante do organismo humanista "Mundo sem Guerras" e os porta-vozes continentais: Michel Ussene, pela África; Sudhir Gandotra, pela Ásia; Giorgio Schultze, pela Europa; Tomás Hirsch, pela América Latina e Chris Wells, pela América do Norte. A todos eles se deu a missão de receber das mãos dos Prêmios Nobel da Paz – durante a edição da Cúpula de Berlim – a "Carta para um mundo sem violência", com o compromisso de difundi-la em todos os países por onde passe a Marcha Mundial.

Precisamente, é nessa "Carta" onde se expressam os Princípios que podem ser apoiados pelas pessoas de boa vontade em todas as latitudes.

Para não me deter exaustivamente, queria destacar o nono princípio da Carta que diz: "Pedimos às Nações Unidas e seus Estados-membros que considerem meios e métodos para promover um reconhecimento significativo das diversidades étnicas, culturais e religiosas nos estados nacionais multi-étnicos. O princípio moral de um mundo não-violento é: "Trata os demais como gostarias de ser tratado".

Esse princípio moral vai além de toda norma e de toda legalidade para assentar seu domínio no terreno humano pelo registro do reconhecimento comum que supera todo cálculo e toda especulação.

Esse princípio, conhecido desde a antiguidade como a "Regra de Ouro" da convivência, é um dos treze que se tem em conta nesse magnífico documento que é necessário difundir amplamente.

Por outro lado, não devemos deixar passar alguns tópicos que dizem respeito à compreensão de nossas atividades no campo da não-violência, porque é evidente que a prevenção negativa com relação a nós nasceu e se desenvolveu na América do Sul durante as lutas não-violentas sustentadas contra as ditaduras militares. É muito claro que a discriminação que sofremos em diversos campos parte da desinformação e da difamação sistemática sofrida durante décadas em nossos países de origem, como Argentina e Chile. As ditaduras e seus órgãos de "desinformação" foram tecendo sua rede desde a época em que se proibia, encarcerava, deportava e assassinava nossos militantes. Ainda hoje e em distintas latitudes, pode-se pesquisar a perseguição que sofremos, não somente por parte dos fascistas, mas também por parte de alguns setores "bem-pensantes". E notável que, à medida que nossas atividades avançam, muitos declamadores da paz rasgam suas vestes, exigindo nosso silêncio ou apostrofando todo grupo ou indivíduo que nos mencione publicamente.

Embora esses insultos fiquem no passado, hoje se continua aviltando a ação não-violenta, argumentando que nada poderá ser feito, além de discursos, frente aos poderes "reais" que decidem as situações do mundo. E, para exemplificar, vejamos alguns casos.

O primeiro se refere às campanhas contra o Serviço Militar, efetuadas por humanistas na Argentina há poucos anos.

Nessa época, afirmava-se que era impossível modificar essa lei de obrigatoriedade. Sobretudo, depois de ter obtido, durante um ano de atividade, um milhão e meio de assinaturas que foram rejeitadas sem justificativa. Então, o Poder Executivo divulgou a inconveniência da tentativa que deixava "a Nação em estado indefeso frente às possíveis agressões de países limítrofes". Entretanto, a opinião pública estava sensibilizada de tal maneira que o debate (sem mencionar os autores do projeto) veio à tona, enquanto os meios informativos foram fazendo eco. E, em determinado momento, a Presidência da República assinou o "decreto de anulação do Serviço Militar obrigatório", substituindo-o pelo Serviço Militar optativo. Mas se argumentou, nessa ocasião, que se tomava tal medida porque um soldado tinha morrido em um quartel devido aos maus tratos recebidos. Dessa maneira, ficou claro que não foi inútil a longa campanha e mobilização dos humanistas, porque a lei arbitrária foi sepultada.

Outro caso mais recente produziu-se na República Tcheca.

O chamado "escudo estelar" estava sendo projetado desde 2002, sem que a população da República Tcheca ou da União Européia soubessem do fato. Em junho de 2006, o Movimento Humanista foi promotor de uma aliança de organizações de base sociais e políticas, informando que 70% da população era contrária. E se pediu que não se realizasse o projeto, dada sua periculosidade, ao mesmo tempo em que se exigia um referendo. Dois humanistas iniciaram uma greve de fome e o protesto começou a contar com o apoio de organizações pacifistas e não-violentas. Esse tipo de protesto se manteve durante um ano, envolvendo artistas, acadêmicos, cientistas e prefeitos. Finalmente, o protesto se desenvolveu também no Parlamento Europeu. Em março de 2009, o governo caiu, por confluência de diversos fatores, mas o protesto popular e a oposição parlamentar adiaram a ratificação do tratado entre a República Tcheca e os EUA. Em setembro de 2009, Obama renunciou ao projeto do escudo estelar na República Tcheca e na Polônia.

Devemos considerar agora dois temas ainda não compreendidos em seu alcance social.

Como todos captamos, instalou-se em nossas sociedades a temática ecológica e a defesa do meio ambiente. Embora alguns governos e certos setores interessados neguem o perigo presente na desatenção ao ecossistema, todos estão se vendo obrigados a tomar medidas progressivas pela pressão das populações, cada dia mais preocupadas com a deterioração de nossa casa comum. Até nossas crianças estão a cada dia mais sensíveis aos perigos do caso. Nos centros de ensino mais elementares e através dos meios informativos, coloca-se atenção no tema da prevenção da deterioração e ninguém pode escapar dessas preocupações.

Mas quanto à preocupação com o tema da violência, temos um notável atraso. Quero dizer que ainda não está instalada em nível geral e global a defesa da vida humana e dos mais elementares direitos humanos. Ainda se faz apologia da violência, quando se trata de argumentar a defesa e até mesmo a "defesa preventiva" contra possíveis agressões. E não parece experimentar-se horror pela destruição massiva de populações indefesas. Unicamente quando a violência atinge nossa vida civil através de crimes sangrentos nos alarmamos, mas não deixamos de glorificar os maus exemplos que envenenam nossas sociedades e as crianças, desde a mais tenra infância.

É claro que ainda não está instalada a idéia nem a sensibilidade capaz de provocar um repúdio profundo e um asco moral que nos afaste das monstruosidades da violência em seus diferentes aspectos.

Por nossa parte, faremos todos os esforços necessários para instalar no meio social a vigência dos temas da Paz e da Não-violência e é claro que chegará o tempo para que se suscitem reações individuais e também massivas. Esse será o momento de uma mudança radical em nosso mundo.

Para terminar com minha breve intervenção, gostaria de retomar a "Carta para um mundo sem violência" proposta pelos Prêmios Nobel da Paz e Organizações Nobel pela Paz, com o objetivo de impulsionar suas propostas ao longo desta Marcha Mundial pela Paz e Não-violência. Estaremos muito honrados ao compartilhar seus princípios nas ações concretas do quefazer social que, com certeza, nos encaminharão para esse novo mundo que mencionamos.

Nada mais, muito obrigado.

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