quinta-feira, 26 de agosto de 2010



Prece para o devoto aposentado
(ou, o pequeno-burguês)
por Daniel Benigni

Um devoto aposentado com os filhos já bem encaminhados, no entanto, um tanto quanto desanimado, (sabe-se lá por qual motivo) caminhando pela fila do banco, encontra colada em uma de suas colunas uma prece de agradecimento, que o deixará pelo resto do dia com um pensamento mais positivo. Sua fabulosa fonte de consolo e carinhosamente preparada pelos melhores especialistas na área inicia-se com os seguintes dizeres:


Ó enaltecida Essência mística de onde tudo provêm!
Eu de ti sou apenas partícula de composição,
Mero pó na balança que nada pesa.

Mas tu, mesmo assim, lembraste de nós,
Mostraste benigno enviando teu filho;
Ele que nos ensinou a fraternidade, a igualdade e a liberdade.
Sim, teu filho deu-nos a cidadania!

Teu filho nos ensinou a pedir Espírito Santo,
E tu mesmo deste a ele em abundância através de impostos e mais impostos.
Teu filho nos ensinou a fazer tua vontade,
Deu-nos educação fundamental, média, técnica e universitária.

Agradeço-te, pai, todas as noites por usares o meu filho de maneira sábia,
Rendendo-te, assim, muitos lucros.

Meu filho, que não poupou-se na entrega a ti,
Desde seu batismo, ao ingressar na escola, mostrou-se um jovem fiel;
Graduação, especialização, mestrado, doutorado...
Muitas noites sem dormir para se tornar o profissional por excelência.

Tu, sim, tu, nunca o abandonaste,
Deu-lhe sempre as melhores colocações,
E seu labor, não foi em vão;
Por ele abençoaste ricamente esta família nos enchendo de Espírito Santo.

Nunca nos chegamos ao Senhor, senão pelo filho,
Ele nos dá existência a ti.

Ele nos registra, conta-nos, apresenta-te estatísticas,
Lidera muitas obras de igrejas e templos, dando toda a infra-estrutura que se necessita,
Para que todos exerçam fé e estribem-se em tua vontade livrando-se do pecado da marginalidade.

No entanto, nos dotaste de livre-arbítrio e aqueles que se negam a exercerem fé em teu filho, recebem o julgamento pelo teu próprio filho;

E ele vem, entre as nuvens dos céus, com policiais, exércitos e uma cadeia nas mãos para amarrar e lançar ao abismo os pecadores intransigentes.

Mas eu não, pai.
Esforço-me continuamente
E a dar-lhe graça
Brado publicamente

Ó Capital! Ó CaPiTaL! Ó CAPITAL!
Trindade misteriosa!

Em nome do Mercado, do Dinheiro e do Estado...Amém



O trabalhador pessimista e o otimista
por Daniel Benigni


Eu quero falar a ti, trabalhador brasileiro que põe o país em pé com o suor do teu rosto, com as mãos calejadas, que passa todos os dias da semana perdendo de 3 a 6 horas por dia amassados nos transportes públicos e mais de 8 a 10 horas nos locais de trabalho.

Por que te sujeitas a isso? Por que crês que a vida é assim mesmo e tudo que há é a submissão consentida que pelo menos te abre o crédito nas Casas Bahia financiando seus eletro eletrônicos em prestações a perder de vista? Por que pensas que isso é algum benefício enquanto seus patrões têm acesso aos melhores hospitais, seus filhos às melhores escolas, às viagens mais fantásticas e além de tudo controlam seu próprio tempo de trabalho?

Por acaso, tu, trabalhador, proletário que nada tens a não ser sua força de trabalho, que é vendida à fiado em forma de um miserável salário ao fim do mês, está satisfeito - apesar dos financiamentos de uns artigos de consumo, com sua saúde, a educação dos seus filhos, do seu nível cultural e conhecimento do mundo? Está satisfeito por não ter o controle do próprio tempo, de ser esmagado e perder horas da sua vida no transporte público e ainda ser chamado de mal educado? Está satisfeito em não ser ouvido, não ser respeitado e desgraçadamente enganado quando de 2 em 2 anos é obrigado a votar no político menos pior? Está satisfeito por sofrer chacota nos programas de humor e ainda ter que aplaudir e rir da própria desgraça anunciada? Está satisfeito em ser aterrorizado todo o dia pelo Datena e suas cópias genéricas de plantão enquanto fazem o ridículo papel de paladinos histéricos da justiça? Está satisfeito por nada resolver de verdade seus problemas e por ter a sensação de patinar no gelo sem sair do lugar? Está satisfeito? Está realmente feliz?
O seu futuro apresenta perspectivas reais? Seus planos, aspirações e desejos parecem corresponder ao movimento real que as coisas estão tomando, ou parece mais um devaneio sem sentido que te coloca numa roda que gira de fracasso em fracasso?
Se respondeste não para a maioria das perguntas acima, então, é para ti que escrevo. Agora, se achaste que sou muito pessimista e se enjoou das minhas declarações, digo que também é para ti que escrevo, porque independente de ser otimista ou pessimista, reforço, continuo falando ao mesmo trabalhador brasileiro, proletário que perderia tudo se ficasse desempregado por nada ter, a não ser sua própria força de trabalho que de “boa vontade” e “livremente” vende, de uma maneira tal, que deixaria qualquer escravo do passado perplexo. Se este ressuscitasse agora e visse a sua situação, de fato, poderia te dizer que não existe escravo melhor do que aquele que se julga livre.
Então, se for um trabalhador otimista ou pessimista não importa, ambos estão irremediavelmente ligados como a gêmeos siameses, restando-lhes apenas a consciência de que padecem da mesma injustiça, não importando os cargos ou a hierarquia profissional que cada um conquistou ou quer conquistar.
Tanto o trabalhador otimista quanto o pessimista tem suas razões, mas não estão em oposição e a luta não é entre vocês, porque a tática dos poderosos de todas as épocas sempre foi dividir para conquistar. Pensem nisso.

0 comentários:

Postar um comentário

Gostou do Partido? Então cadastre-se para receber boletins virtuais por Email ou RSS. Não gostou? Entre em contato e sugira uma pauta. * Deixe aqui suas opiniões e comentários.

 

Acompanhar este Blog

Blog do PH Copyright © 2009 Blog desenvolvido por AgenciaDigital.Org