sábado, 30 de outubro de 2010

Pequena ode à real democracia

Por
Claudia Pucci

As eleições estão aí. E como ficar à parte é uma escolha que determina sua parte, decidi entrar no jogo das opiniões e tornar público meu ponto de vista.

Nesse domingo encerra-se mais um espetáculo democrático. Ainda vai ter dedo no olho, certamente, no último round em rede nacional. Luta de gladiadores, numa arena em que nos permitem brincar de Cesar e apontar polegares: cada um, um dedo: voto.

Sim, essa democracia é um avanço, se formos comparar com monarquias absolutistas, ditaduras e outras pérolas de nosso lento engatinhar. E hoje, tecnicamente, qualquer um de sangue vermelho pode se candidatar. Contanto que legalize um partido, tarefa que alguns deixaram bastante árdua. Ou arranje um que te acolha, e se for eleito, reze pela sua vida na corte.

Ainda assim, é uma democracia.

Democracia representativa. Democracia de avatares. Não de fato, real, horizontal, com o poder na mão de todos. De todos?

Em outras épocas, eu usaria o termo “poder popular”, mas a palavra popular é agora pronunciada por quem não se sente popular, o que não é meu caso. Faço parte dessa grande massa-classe-média que trabalha e sonha com dias melhores, na mais torpe das hipóteses, ou faz coisas para que esses dias melhores realmente aconteçam, numa versão mais lúcida. Mas também reconheço que tive certos privilégios fundamentais: um pouco de estima acima da média da classe, por ter tido a sorte de ser amada e ter tido acesso a alguns bens. Nem falo de geladeiras, carros e televisores, mas um bem maior: educação e senso crítico.

Mas voltando à vaca fria: Nossa ilusória sensação de poder. Poder escolher, como se estivéssemos livres de uma ditadura velada. Ou, para usar um termo menos datado: como se estivéssemos livres da dominação. Porque apesar de reconhecer a evolução histórica, apesar de preferir ver um assalariado a um escravo ou a alguém pendurado numa fogueira pra ser assado e comido, juro que às vezes me pergunto se minha casa não é uma caverna estilizada. A casa-planeta, digo. Desculpe, alguém já disse isso. Platão?

Mas sou otimista. Apesar.

Sou otimista com bases realistas. Porque já experimentei o poder HORIZONTAL. Já vivi momentos em que um grupo circular, sem reis ou vassalos, conseguiu tomar decisões coletivas preservando individualidades. Preservando a diversidade. Um equilíbrio sutil, suave, que só é possível vindo de um lugar: o além-mim.

O além-mim é um lugar de transcendência. Diferente do não-eu que caracterizou muitos coletivos em que indivíduos sentiam-se massacrados, e depois vieram cobrar essa dívida num individualismo crônico. O além-mim é a integral preservação do eu e suas particularidades, mas com um salto além, com uma nota acima, uma frequência mais alta. Uma nota em uníssono com diferentes vozes. Um consenso que não vem da cabeça, de um cálculo, de um raciocínio, mas se uma necessidade profunda de unidade interna.

O além-mim, feito de tantos, nunca é estático. A respiração de um faz o conjunto se mover e novamente, instavelmente, se reequilibrar na ponta de um só pé. Impossível parar, estagnar. O consenso é uma dança infinita, não para nem na menor unidade de tempo.

Já vivi momentos assim, de além-mim. E já os vivi em grupo, num maravilhoso além-nós.

Depois o eu cobra sua parte desse latifúndio, faz cálculos, como é típico de sua natureza. Totalmente compreensível, sem ele estaríamos mortos. Ele é o que nos resta de nossa porção cro-magnon, que garantiu nossa sobrevivência por séculos. Não, não atiro pedras ao eu. Ele, o eu, me trouxe até aqui. Mas aqui não é o fim, e os lugares por onde tenho que entrar – os lugares por inaugurar – me pedem uma nova consciência.

Nesses lugares, a democracia é, de fato, real. Não faz sentido algum escolher representantes. Assim como não faz sentido, hoje, eleger alguém para dar um beijo no ser amado. Eleger alguém para mergulhar na cachoeira, ou para as questões mais simples, como dormir e acordar. Ou morrer.

Mas hoje, época em que avatares vivem a vida em second life, não é de se estranhar. Não é de se estranhar que não se ache estranho um modelo em que alguns decidem o destino de milhares. Impossível abarcar todas as necessidades, ainda que a intenção seja a melhor. Ainda que assim fosse. Ainda que um eleito fosse o eleito de Deus, ainda que Deus fosse.

E olhe que não estou contando as más intenções. Ou, para ser mais realista, as intenções fracionadas. Porque só os vilões da Disney reconhecem a si próprios como “maus”. Mas sim, há grandes equívocos movidos pela cegueira, pelo descaso. Pimenta nos olhos de outros nem mais é refresco: não se conhece. Notícias chegam filtradas na corte. Mas isso não é ignorância inocente, é opção.

Não creio da democracia representativa, assim como não acredito em chefes, mandantes, reis, ou qualquer coisa que seja uma representação externa de uma real divindade que só existe no mundo interno. Aqui fora, estamos ainda atemorizados pelos raios que desconhecemos, na desolação de quem ainda se busca. Criamos Olimpos, é verdade, na ilusão de trazer próximos os deuses, na ilusão de não nos sentirmos mais o desamparo da pergunta: Quem somos? Para onde ir? Ou, simplesmente: ter alguém a quem erguer os braços e pedir a bênção. Nós, nação sem pai. Nós, nação de mães trabalhadoras, nós criado por avós, carentes de referência. Como nos tirar o que resta, a esperança de um salvador? Ou o prazer sadomasoquista de ser pisoteado por déspotas para depois poder atirar-lhe pedras? Os bodes expiatórios são tão antigos quanto as prostitutas.

E eu, que tanto quero o direito, a escolha, e quantas vezes agradeci pela escolha ser alheia? Poder delegar a representantes o fardo da decisão. Um fardo regado com a calda doce do poder, mas ainda assim, pesado. Se não o fosse, não esgotaria tanto quem o carrega. É possível, então, a horizontalidade dos círculos?

Sim, eu já experimentei. Ainda que por tempo limitado, em que um desejo de algo maior se faz presente, compensando e sobrepassando, em importância, nossa carência vertical. O sentido de comunhão é tão verdadeiro quanto as pedras, mas parece efêmero por sua leveza no tempo. Porém existe. E a real democracia virá justamente daí. Por enquanto, em pequenos grupos. Por enquanto, em espaços sagrados onde se suporta a elevada vibração do além-eu, do além-nós.

Enquanto isso, voto, elejo, delego. Enquanto isso.

A tempo: nunca, jamais em toda a vida, votaria no Serra. Votarei no PT com muitas ressalvas, pois apesar de reconhecer as boas reformas vindas de sua história, ainda não é a revolução que espero. Sua raiz sindicalista negocia bons acordos para a massa assalariada, mas não questiona o modelo: por que precisamos de patrões?

Então, entre ressalvas, continuo construindo a anarquia imaginada. E torcendo para que a lucidez e o amor caiam como um raio no coração de quem, agora, disputa a coroa.

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